POR POUCO O LEÃO DO SUL NÃO FOI ABATIDO PELA GANÂNCIA
Nos anos 80, o E.C. São Martinho quase desapareceu.
Há algum tempo atrás, conversando com o Laranjeira, hoje
presidente da Câmara Municipal de Tatuí, nos lembrávamos do período de angustia
na luta, para impedir que os proprietários da Fábrica São Martinho transformassem
o estádio do time de futebol, patrimônio da cidade de Tatuí e do esporte de
nossa terra, em mais uma área reservada a especulação imobiliária. Se tivesse
acontecido teria sido a morte do Leão do Sul.
Senti, uma certa decepção da parte dele, apaixonado pelo
azul e branco e descrente do modelo de clube esportivo e de gestão, exauridos
dos nossos clubes, que sobrevivem pelo amor de poucos abnegados, que ainda
vivem essa gostosa utopia, até quando não se sabe, apesar da importância desses
clubes na formação esportiva das gerações que se sucedem, pelo menos até aqui
ou até que venha um novo modelo de instituição ou gestão. Resisto a aceitar a
extinção de nossas instituições, mas, logo me vem à mente, Tatuí Clube,
Recreativo, Princesa Isabel, Alvorada só para ficar em alguns deles e sem
entrar em outros méritos.
Argumentei, acho que com algum sucesso, que o Esporte Clube
São Martinho, fundado em 1939 é um sobrevivente vitorioso. Li em algum lugar
que a média de sobrevivência de uma empresa no nosso país é em torno de 20 anos.
O Esporte Clube São Martinho passou dos 70, possivelmente vai completar 100
anos. Muito mais que a própria fábrica que deu origem a sua existência e a seu
nome, que há muito encerrou suas atividades. Não sei se cabe a analogia.
Houve um tempo em que o fim parecia estar muito próximo. Se
tivesse acontecido, quantos teriam sido privados de
tantos momentos e sentimentos bons. Guardadas as proporções, você corintiano já
imaginou o futebol sem o Corinthians? E você palmeirense, o que seria de você
sem o “Palestra”? O mesmo serve para os demais e serve também para quem gosta
do “Leão,” aqui em Tatuí.
Esta história com final feliz, não da para contar apenas
neste texto que é só referência para um dia fazer se o registro mais detalhado com
vistas à preservação da memória, coisa que o nosso subdesenvolvimento social e
intelectual coloca em último plano em nossas prioridades.
Neste texto vou relatar apenas o capítulo final desta
história.
Eu trabalhava há época na Camargo Engenharia, com os irmãos
Dirceu e Manoel Geraldo, por quem sempre nutri muita consideração e respeito.
Naquele tempo ainda havia prancheta, régua paralela, nanquim e papel vegetal.
O escritório ficava na rua Coronel Aureliano de Camargo,
quase esquina com a “Praça do Barão” e minha sala era contínua à recepção com
janelas abertas para a rua.
Um dia, no meio da tarde, aparece numa das janelas o então
presidente do Esporte Clube São Martinho, Saulo dos Reis, sem conseguir esconder
um sorriso no rosto.
De imediato não compreendi a razão da visita, afinal havia
regressado já há algum tempo, ao clube em que fui muito feliz e onde ocuparia
cargos de direção e chegaria á presidência, o Santa Cruz.
Ele tinha boas novas e definitivas em relação ao Esporte
Clube São Martinho. Após anos de luta na justiça, precedida de atos de
violência, invasões, manutenção da posse precária, ameaças de morte e
tentativas de suborno, a justiça em Brasília reconhecia o direito do clube
sobre o Estádio Dr. José Rubens do Amaral Lincoln, chamado assim a partir de
então como forma de gratidão ao advogado que, com a competência que o acompanha
ao longo de sua carreira defendeu sem receber pagamento pela causa.
Nunca me esqueci desse dia e nem da fisionomia do presidente
Saulo dos Reis que refletia muita satisfação combinada com a expressão de
alívio pelo desfecho de um caso que representava a vida ou a morte de uma das
instituições mais queridas da nossa cidade.
Junto com a notícia o presidente me entregou uma flâmula do
Esporte Clube São Martinho que recebi com maior orgulho pela rica experiência
que o São Martinho me permitiu viver, reafirmando meus valores de que vale a
pena resistir.
Esta história que um dia precisa ser contada na sua íntegra
é para homenagear três personagens que lideraram um grupo de homens cujos
princípios e coragem tornaram possível sonhar com o centenário do Esporte Clube
São Martinho.
Esta história foi vivida por NICOLAU SINISGALLI, LARANJEIRA
E PILICO entre outros.
