ADO - VILÃO HERÓI OU MAIS UM MÁRTIR DE UMA FATALIDADE?

Acabei de ver um vídeo da TV Globo realmente emocionante, falando da conquista do primeiro titulo brasileiro do Coritiba.

Emocionante não do ponto vista da torcida, ou do conjunto dos atletas que participaram deste capitulo da história do futebol brasileiro que completa 30 anos.

O titulo brasileiro de 1985, decidido nos penates, no Maracanã envolveu na disputa dois clubes que não figuram entre os principais ganhadores de títulos do país, apesar da história glamorosa que reveste todas as instituições esportivas e ambos, não são exceção, Coritiba e Bangu. Um paranaense e o outro carioca. Entidades centenárias.

Eram outros tempos e Coritiba e Bangu arrastaram para o Maracanã mais de cem mil torcedores. O coxa branca da capital paranaense, um numero menor. O Bangu em defesa da honra de cariocas, foi abraçado por rubro negros, botafoguenses, tricolores, vascaínos e todos mais que lembrassem o Rio de Janeiro numa grande e saudável manifestação de bairrismo que tomou conta do restante do Maracanã.

O que mais emociona nessa história esta longe de ser o titulo, a festa em Curitiba ou frustração no bairro de Bangu e em toda cidade do Rio de Janeiro vestida de vermelho e branco, o que emociona nessa história é um drama pessoal de um personagem que teve sua vida alterada por conta dos minutos de bola rolando quando nada foi definido e a decisão desse personagem em assumir uma responsabilidade que ele imaginou que era dele, alguém com a autoestima elevada naquele momento, a ponto de se expor em defesa de um colega mais jovem e inexperiente que ele queria evitar que ficasse marcado para sempre, se algo desse errado na hora de bater o penalte, nas cobranças alternadas.

Ultimo capítulo da história daquele campeonato e mais, o maior título da historia daqueles dois clubes.

O personagem é Ado do Bangu, um dos melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de 1985, ao lado de Marinho outro destaque de Moça Bonita, como é conhecido o estádio do time carioca.

Ado não estava relacionado para as cobranças de penalidades, insistiu com o treinador, chamou para si a responsabilidade, bateu e errou. Coritiba campeão.

O mundo desabou sobre a cabeça do craque do Bangu.

Hoje trinta anos depois, Ado ainda chora ao falar do drama que viveu e que mudou o rumo de sua carreira que poderia ser muito mais promissora do que foi.

Em todas as oportunidades em que esta história foi contada, o desespero do Ado emociona quem tem um mínimo de sensibilidade.

Ainda agora, depois de 30 anos, é um choro doído que toca quem vê e ouve sua história. Eram outros tempos.

Tempos românticos do futebol, de quando os atletas não conseguiam se ver com outra camisa, se não a time do coração, tempo em que depois de terminada a carreira de jogador de futebol ainda no ápice da juventude tinham que buscar emprego para continuar cuidando da família.

Alguém imagina hoje um desses atletas milionários que o futebol tem produzido entrar em desespero porque perdeu um penalte e sua equipe deixou de levantar a taça?

No máximo esse sentimento de vergonha que eventualmente possa ter pelo orgulho ferido não durará mais de uma semana, quem sabe um mês até o próximo pagamento.

A ideia não é promover aqui o julgamento, muito menos o linchamento moral de quem hoje, com esforço e o talento que vem de Deus, consegue rapidamente enriquecer, às vezes indiferente à paixão pelo clube que o formou.

Cada tempo com a sua realidade e seus novos valores, mas, não da para passar em branco tamanho gesto de brio e dignidade como do Ado, que ficou marcado de forma tão espetacular que 30 anos depois ele sente a mesma dor do dia da sua tragédia pessoal, se emociona e chora.

Não foi o primeiro, temos o exemplo de Barbosa goleiro da seleção brasileira de 1950 que pagou a conta de uma derrota, que não foi só sua, por toda uma vida.

Muito provavelmente temos outros casos com menor repercussão e esse do ponta esquerda Ado do Bangu, não será o ultimo a repercutir.


Acredito que a exemplo do Barbosa, o Ado também já foi absolvido por todos, entendo que ele esta sendo muito severo consigo mesmo, como o próprio Barbosa foi, mas, admiro sua dignidade num tempo de muita confusão entre profissionalismo, ética, honestidade e “esperteza”.

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