MEMORIA DE INFANCIA

Quando se é jovem, com o processo de formação da nossa memória afetiva em construção é normal dar de ombros as manifestações dos mais velhos em relação às lembranças do passado, é até compreensível a falta de paciência do jovem e da criança com o velho e suas histórias, afinal, tudo parece muito abstrato.

Esses moços, pobres moços, ah! Se soubessem o que eu sei, como diria Lupicínio Rodrigues, autor do belo hino do Grêmio de Futebol Porto Alegrense, na letra de uma de suas canções, imortalizada na voz do Jamelão, como é bom acumular memórias afetivas que marcam nossa existência aqui, na passagem por este mundo de meu Deus.

A lembrança é uma de nossas maiores riquezas, e como alimenta essa nossa existência, e traz felicidade as boas lembranças de infância. As minhas melhores lembranças são as esportivas.

No tempo em que Tatuí era muito menor, em que as pessoas eram quase todas conhecidas e muito próximas, solidarias, os atos criminosos eram quase efemérides e as crianças podiam caminhar tranquilamente, viajando nos seus pensamentos, para ir sozinhas a escola, eu fazia meu percurso diário do Bairro Santa Cruz até a Escola Modelo, anexa ao Barão de Suruí. Corriam os anos de 1962, 1963, não estou bem certo.

Subindo a Juvenal de Campos, entrava na José Bonifácio para os últimos cem metros até a escola, é neste pedaço de rua que estava o motivo de minha boa lembrança que guardo com muito carinho até hoje.

Na calçada da esquerda de quem segue em direção a Praça Paulo Setúbal (Praça do Barão), havia uma sorveteria de propriedade de alguém da família Avallone, em cuja parede ficava um quadro emoldurado, protegido por um vidro, com uma foto do A.C. Torino da cidade de Turim, capital do Piemonte na Itália.

Na minha inocência, não entendia a atração que aquele quadro provocava em mim, todos os dias em que eu passava ali e parava para admira-lo, talvez tenha sido uma das primeiras manifestações do meu amor pelo esporte, em espacial pelo futebol que eu desenvolveria com o passar dos anos.
Só depois de muito tempo fui conhecer um pouco da história deste clube por quem nunca perdi a admiração e talvez resida aí, também, meu gosto pela cor grená que veste muitas equipes, inclusive uma da capital de São Paulo, que tem o nome do maior rival na Itália, a Juventus, cuja dissidência em 1906 deu origem ao grande Torino, que tem na sua história o registro de uma das maiores catástrofes do futebol mundial.

Nascido numa cervejaria, Voigt, o Torino detentor de 7  títulos, quebrava recordes na Liga Italiana do cálcio, era base da seleção italiana, nos anos 1940, quando em 4 de maio de 1949, o avião que trazia a delegação de Lisboa onde tinha jogado um amistoso contra o Benfica, chocou-se contra  a Basílica de Superga, no desastre que ficou conhecido como a tragédia de Superga.

No mesmo dia do trágico acontecimento, em clima de comoção no mundo todo, o Torino foi declarado campeão da Liga na temporada.

Para terminar a competição a equipe juvenil substituiu o time desaparecido, nos compromissos que restavam.

Num gesto de respeito e grandeza 4 adversários escalaram também os seus juvenis.

Com certeza nem todos compreenderão a importância, o significado dessa lembrança que divido com quem tiver sensibilidade e quiser usufruir.

É um sentimento muito gostoso, é a viagem no tempo, que se faz toda vez que desejarmos reviver as experiências mais agradáveis através da memória.


Talvez essa seja uma prerrogativa dos mais vividos, já que as crianças, tem o privilegio do tempo para sonhar e correr atrás deles. 

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