E O BORUSSIA M’GLADBACH VIROU PONTE PRETA
Se existe um consenso entre as pessoas mais conscientes do
melhor caminho para um povo se desenvolver é de que isso deve acontecer através
de uma boa educação.
Nas ultimas cinco décadas o nosso país andou na contramão
dessa verdade histórica e sabemos ou supomos as razões uma vez que nada neste
mundo acontece por acaso. Este é um assunto para ser debatido em outro espaço,
mas, a história que vou contar tem haver com a educação pública que entrou em
declínio no final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, até os dias de
hoje com os milhões de analfabetos funcionais que este país produziu desde
então.
Em 1970 foi criada a revista esportiva, Placar, que sobrevive
até hoje e é uma referencia quando o assunto é esporte.
Era um tempo em que as notícias não circulavam na velocidade
de hoje e qualquer novidade no esporte, trazida pela Placar era comemorada, após,
degustada a notícia e a revista compartilhada entre nós adolescentes e jovens
apaixonados pelo esporte, em particular o futebol nosso de todos os dias.
Tempo das peladas nos campinhos espalhados pelos bairros de
Tatuí, do infantil e juvenil do XI de Agosto, tempo das disputas dos
campeonatos de futebol de salão, hoje futsal, nas quadras de cimento da quadrinha
municipal, da quadra de cimento e descoberta do XI, hoje ginásio 2 e do Barão de Suruí, nossa escola. Tempo das
“panelas”, subdivididas em “panelas”
menores. Nós tínhamos a nossa e uma das lideranças da nossa panela era o Jama (João
Antonio Almeida), hoje, um dos grandes contadores e proprietário de um dos mais
importantes escritórios de contabilidade de Tatuí.
O Jama era colecionador da revista, Placar, que era semanal e
nós, que tínhamos menos dinheiro ainda do que temos hoje, liamos na carona que
generosamente ele nos permitia.
Numa das edições a Placar trouxe uma reportagem do campeão alemão
da temporada 1969/1970, Borussia MoenchenGladbach, complicado para ler e
escrever, isso, atraiu a nossa atenção, em especial do Jama que acabara de fazer
a nossa inscrição no campeonato de futebol de salão do Barão de Suruí. E o nome
do time seria Borussia MoenchenGladbach,
nossa homenagem ao campeão alemão.
Como diria o Velho Lobo Zagallo, “aí fomos surpreendidos”,
alguém, que não lembro quem, trouxe a informação de que com aquele nome não
disputaríamos a competição, ordens superiores, ordem do diretor da escola. Faço
a ressalva de que este educador cujo nome nem lembro mais, não era de Tatuí.
Na nossa inocência, aquela decisão não fazia sentido, então
buscamos alguma justificativa plausível e a emenda ficou pior do que o soneto,
descobrimos que nosso diretor temendo ao sistema político da época, a ditadura
militar que vivia seu período mais duro em sua patrulha ideológica, vetou o
nome BoRUSSIA. Paranoia total.
Seríamos nós subversivos? Claro que a tese não fazia nenhum sentido, o maior
ato de terrorismo que cometíamos, eu confesso (nem precisam me torturar), era quebrar
algumas vidraças nas peladas de rua, que eram comuns.
A ideia vendida para nós do “país do futuro” como dizia a
propaganda oficial, era de que o mundo era dividido entre mocinhos (os Americanos)
e bandidos (os Russos), simples assim, como Hollywood produz ainda hoje com
outra roupagem e outros inimigos.
Até hoje fico imaginando se aquele educador ignorava que Borussia
faz referencia aos habitantes da região da antiga Prussia na Alemanha, como
Bayer faz referencia aos habitantes da Baviera, se era medo, ou ainda
consciência ideológica mesmo, resposta que nunca teremos e nem interessa mais.
A verdade é que o nosso Borussia, do Jama, do Zé Antônio
(Ubra), dos saudosos Felipe e Leandro, acabou disputando o campeonato, mas, protestando
pela obrigatoriedade da mudança de nome, então, como Ponte Preta. Um bom nome para um time de futebol.
