CONHECENDO MELHOR AS PESSOAS
O ser humano é pródigo em fazer julgamento de pessoas, de
acordo com seus gostos, hábitos e costumes e invariavelmente baseado na
primeira impressão.
Também cometo esse pecado, sou humano, imperfeito, apesar de
me policiar constantemente. Faço aqui confissão de público, porque, envergonha-
me as injustiças que cometo. Faço para me penitenciar e fazer justiça.
Quando assistia futebol pela Bandeirantes, ficava incomodado
com a postura, os comentários e opiniões emitidos pelo Neto (craque e ídolo do
Corinthians), mais pela forma que pelo conteúdo, porque ele é um conhecedor da
matéria e como diz o ditado, sabe porque esteve lá.
Considerava inoportuna algumas de suas observações e ironias
que pareciam arrogantes, absoluta falta de humildade, o que contraria alguns de
meus valores. Não que meus valores sejam melhores que os dos outros, mas, são
meus parâmetros.
Dois fatos recentes estão mudando meu conceito porque mostram
um lado do Neto, humano, que por ignorância minha, era desconsiderado no julgamento
superficial, portanto injusto, que eu fazia do comentarista da Bandeirantes.
Certo também é que minha opinião não tem a menor importância para ele ou para a
Bandeirantes. Serve para mim mesmo e para alguém que possa ler e achar interessante
a história que conto.
Assistindo o programa Bola da Vez, da ESPN, que recebeu para
entrevista o ex-presidente do Corinthians Andrés Sanches, responsável pela
valorização da marca Corinthians nos últimos anos e pela construção do estádio,
sonhado a décadas, até então frustração e motivo de chacotas dos adversários,
ouvi desta figura das mais importantes do mundo do futebol, algo que de fato me
surpreendeu. Perguntado sobre seus ídolos enquanto corintiano ele foi enfático
em citar o Neto, não pelo grande futebol que sempre jogou ou pelo título
brasileiro de 1990, inesquecível a toda nação alvinegra.
Esclareceu então o porque de sua admiração pelo Neto. Sua
sensibilidade, respeito e tomada de decisão em relação às pessoas,
principalmente as mais fragilizadas dentro de um sistema como do funcionamento
de um clube de futebol no seu dia a dia.
A atenção, a relação de carinho e a igualdade com que o Neto
tratava todos os funcionários do Corinthians, dos mais humildes aos mais
graduados, despertaram essa admiração do Andrés.
A preocupação do maior craque, de um dos times mais popular
do país, com falta de estrutura das categorias de base, fazia com que o Neto
sequestrasse material de treino da equipe principal para abastecer as
categorias menores, oferecendo aos meninos uma melhor condição de treinamento,
para desespero do roupeiro a quem o Neto tranquilizava dizendo: ”Diga ao seu
Dualib (presidente na época) que fui eu que peguei o material”.
Nesta semana quando perdemos Luciano do Valle de quem não é
preciso dizer mais nada depois de tanta manifestação justa de reconhecimento de
seu valor para o jornalismo esportivo e para o esporte de maneira geral, de
muitas homenagens, não pude deixar de observar a dor e o verdadeiro sentimento
pela perda definitiva na expressão do seu companheiro de transmissão das
jornadas esportivas, essa figura singular e humana a quem começo a conhecer um
pouco melhor e por isso mesmo a respeitar e admirar um pouco mais, agora, como
profissional de comunicação.
Observar ainda, que ninguém ocupa um espaço na mídia como o
Neto ocupa na Bandeirantes por favor, ele da audiência e audiência da lucro,
mas, o que me agrada mais é esse Neto que eu desconhecia e creio poucos
conhecem, humano, sensível, humilde, qualidades admiráveis em um ídolo,
primeiro do esporte mais popular do planeta, depois em um dos times mais
popular do país deste esporte, agora no veículo de comunicação mais popular, a
televisão.
